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Claudinha revela as sujeiras dos bastidores da FPA que quase destruíram a sua vida


Ex-militante e funcionária do PC do B, Cláudia Pinho de 31 anos, mãe de três filhos, sempre esteve envolvida com a política, desde a adolescência. Nascida em Santa Luzia, Cruzeiro do Sul, ela é filha de uma das figuras mais emblemáticas da comunidade, o Irmão Kit. Toda a sua família sempre teve ligações com a política. Claudinha, como é mais conhecida, foi candidata a vereadora em Rio Branco, em 2012, com uma votação expressiva, apesar de não ter sido eleita.
Envolvida numa rede de fofocas durante a campanha à prefeitura, Claudinha, “comeu o pão que o diabo amassou”. Acusada de ter um relacionamento com o então candidato e hoje prefeito Marcus Alexandre (PT) viu a sua vida desmoronar. As fofocas, que segundo ela, foram forjadas dentro da própria FPA, não atrapalharam a eleição do candidato, mas deixaram um rastro de destruição e desconfianças a seu respeito, que geraram uma série de traumas para ela e a sua família. Uma mostra da irresponsabilidade da política de destruição de reputações que acabam atingindo seres humanos na sua fragilidade.
Após a eleição de 2012, Claudinha trabalhou por um tempo na Secretaria Municipal de Educação e, posteriormente, na Secretaria Articulação Política do Governo do Estado, com o todo poderoso Francisco Nepomuceno, o Carioca. No começo de 2017, Claudinha deixou o cargo comissionado para iniciar uma nova vida longe da FPA e dos círculos do poder.
Nessa entrevista exclusiva para o ac24horas, a primeira concedida depois cinco anos, Claudinha, conta as dificuldades que passou depois de ser vítima das maledicências do jogo rasteiro da política. Aponta os articuladores que tentaram prejudica-la e fala dos bastidores do poder. Também revela os preconceitos e ataques à honra que as mulheres enfrentam ao se aventurarem nas disputas eleitorais. Acompanhe o nosso bate papo, às margens do Rio Acre, no Novo Mercado Velho de Rio Branco.
ac24horas- Claudinha você sempre teve uma militância política muito forte. E parece que agora se afastou da política. Por quê?
Claudinha Pinho – Chega um momento da vida que a gente começa a avaliar as coisas que acontecem na nossa trajetória. Tenho muito orgulho de tudo que vivenciei até hoje, até dos momentos mais difíceis que serviram de aprendizado. Desde muito jovem, criança na verdade, me apaixonei pela política, e ainda sou apaixonada, apesar de tudo que vivemos a nível local e nacional. Ainda acredito que a política é uma forma de transformar a vida das pessoas, mas que da maneira que as coisas acontecem atualmente, pode ser também uma forma de destruir as pessoas. Quando comecei a militar acreditava na pureza das intenções dos políticos e fui me envolvendo no movimento estudantil. Filiei-me ao PC do B, que tem uma história muito bonita de lutas, um partido que tenho orgulho de ter feito parte porque tem também pessoas boas lá dentro. Eu era uma militante aguerrida que não tinha medo nem de sol e nem de chuva, acordava de madrugada. Era uma soldada disposta a lutar independente do tipo de guerra. Mas foram acontecendo muitas coisas no decorrer do tempo. Uma coisa é ser militante em que não se tem a dimensão do que realmente é a política, outra é se candidatar.
ac24horas – A sua candidatura a vereadora em Rio Branco, em 2012, acabou tendo muito destaque. Houve fofoca de um possível relacionamento entre você o candidato a prefeito. Quais foram as consequências desses acontecimentos? O que tem de verdade nessa história?

CP – A única coisa que tem de verdade é que conseguiram atingir a minha honra. Essa questão da minha candidatura não passava pela minha cabeça porque eu gostava mais de estar nos bastidores. Mas tudo começou de uma brincadeira entre amigos. E no processo da campanha eu me empolguei. Eu pensava: “se já tinha pedido voto para tanta gente também poderia me colocar na disputa e pedir votos para fazer aquilo que acreditava.” Essa candidatura foi o maior desafio da minha vida e também uma das maiores tristezas. Esse problema todo que aconteceu. Digo hoje que superei, mas na verdade tenho que superar todos os dias. Tenho traumas de coisas que aconteceram que não consigo apagar. Quando a gente se machuca as feridas mais leves saram, mas as mais profundas deixam marcas. Quando alguém atinge a sua honra tem coisas que não se consegue curar. A gente usa remédios para aliviar, mas curar de verdade não cura. Porque atingiram não só a mim, mas a minha família que é algo sagrado. Trouxeram coisas desastrosas para a minha vida. Queriam prejudicar o candidato a prefeito, mas acabaram atingindo a mim e aos meus filhos. Passei momentos horrorosos praticamente sozinha. Sofri julgamentos e pude contar com poucas pessoas naquela época para me defender. Tive que ser forte e reagir pelo meu filho. Passei por um processo doloroso de divórcio por conta daquele problema. Trabalho diariamente os traumas do meu filho. Até hoje sou julgada por algo que não fiz. O que mais dói, como cristã que pede a Deus para tirar isso do meu coração, é que todo aquele problema não veio de fora para dentro, mas de dentro para fora.
ac4horas – Quer dizer que não veio da oposição? Mas de dentro da própria FPA? Do seu partido PC do B, na época?
CP – Não veio da oposição. Eles não estavam preocupados em inventar um caso. Isso foi para me atingir e ao candidato. Haviam interesses de dentro da FPA para que o Marcus não se elegesse. O que mais dói é saber que foram pessoas de dentro, que me conheciam e ao candidato que criaram tudo aquilo e jogaram no colo da oposição, porque era interessante naquele momento. Eu nunca falei abertamente sobre isso porque é um assunto que me deixa desconfortável, por tudo que eu passei. Você ser julgado por um erro que comete, facilita para seguir tranquilamente. Agora, ser julgada e condenada em praça pública, sem direito à defesa, por algo que não fiz? Porque sequer foi me dado esse direito, eu não podia falar nada. Perdi coisas irrecuperáveis. Essa verdade de que foi tudo uma mentira, uma armação, pode chegar para 10 pessoas, mas não vai chegar para multidão que chegou naquele momento. Quando uma das pessoas que me causou aquele problema me pediu desculpas, um jornalista, que deu até uma entrevista dizendo que foi induzido ao erro, eu liberei o perdão pra ele. Mas não esqueço.
ac24horas – Mas quem foram essas pessoas de dentro da FPA que articularam essa armação?
CP- Olha eu prefiro não citar nomes. Eu resolvi não judicializar, na época, mesmo que até hoje não tenha sido prescrito. Então a qualquer momento se eu quiser mexer nisso eu posso. Mas prefiro ver essas pessoas pagando por todas as coisas que me fizeram sem eu desejar nada. Tudo dentro da Justiça Divina. Tem pessoas lá de dentro do PC do B, da FPA, que passaram por coisas semelhantes ou piores do que fizeram comigo.
ac24horas – Então você sabe quem eram as pessoas?
CP – Eu tenho convicção. Tenho as mensagens que foram trocadas por essas figuras. Tenho testemunhas de ligações telefônicas. Inclusive, de gente muito poderosa falando sobre o assunto e da forma jocosa como se expressavam. Tenho mensagens de dentro do PC do B e da FPA espalhando aquela conversa no Facebook. Perguntavam se as pessoas já sabiam do “novo” acontecimento da cidade. Juntando tudo isso acho que aguentei muito tempo em conviver com algumas dessas pessoas que causaram tudo isso. Tanto na prefeitura quanto no Governo. Mas graças a Deus, consegui me libertar desse tipo de gente. Claro que tiveram muitos que foram solidários a mim e a minha família, por isso não quero generalizar.
ac24horas – Claudinha, você acha que pelo fato de você ter sido uma candidata mulher, buscando um espaço na politica, sofreu discriminação?
CP – Sim. Se a gente observar a Câmara de Vereadores da Capital, a ALEAC, a Câmara Federal e o Senado, se vê um número pequeno de mulheres. Esse tipo de jogo rasteiro acaba inibindo qualquer mulher a sair candidata. A gente já é julgada por ser mulher e, se for um pouco mais esforçada, e correr atrás das coisas, aí é que te julgam mesmo. Existe um preconceito não só dos homens, mas das mulheres também porque nós somos a maioria. O quê justifica não termos a maioria da representatividade política no país? Porque nós mesmo perseguimos as mulheres, falamos mal, criticamos, julgamos e não apoiamos umas as outros que é o que deveria ser.
ac24horas – Passado esse episódio de 2012 você trabalhou com duas figuras emblemáticas da política do Acre. O prefeito Marcus Alexandre e o articulador político Carioca. Qual a diferença entre eles?
CP- Eu tenho respeito pelos dois como tenho por qualquer outra pessoa. O prefeito Marcus tenho as minhas críticas à sua gestão, mas como pessoa não tenho o que falar. Respeito ele, assim como a dona Antônia que tem uma banquinha que vende verdura do lado da minha casa. E o Carioca é outra pessoa que não tenho o que dizer. Aprendi muito com ele. É um perfil diferente do prefeito. O Carioca é um cara muito inteligente e não acho errado o que ele faz porque cuida do PT que é o partido dele. Está preocupado com eles e não vou julgá-lo por isso.
ac24horas – O Carioca coloca o interesse do PT acima de qualquer outra coisa?
CP – Ah claro! Isso eventualmente pode prejudicar algumas pessoas. Mas acho que hoje na política cada um cuida do seu pirão.
ac24horas – Ele ainda é o maior articulador político do Acre, na sua opinião?
CP – Eu acho ele um excelente articulador. Tanto que consegue o que poucos conseguem. Ele fez com a habilidade dele uma chapa PT-PT para o Governo, em 2014, com o Tião Viana (PT) e a Nazaré Araújo (PT) de vice, quando ninguém queria que fosse assim. Todos os partidos sapatearam dizendo que não seria assim. Ele conseguiu deixar, o então senador Anibal Diniz (PT) de lado, naquela época, para pôr a candidata que ele achava necessário. Ele consegue tudo que quer na FPA. Os partidos podem chorar a vontade que ele não se comove.
ac24horas – Claudinha, você que estava dentro, acha que o Carioca ainda é poderoso nesse momento do Governo de Tião Viana?
CP – Não. Ele não tem mais o poder que tinha. Mesmo de fora percebo que não tem a mesma influência. Não sei se foi o resultado das últimas eleições. Mas acho que ele não tem sido consultado para algumas coisas. Está sendo deixado um pouco de lado.
ac24horas – Depois dessa vivência intensa de bastidores da política e do poder, você ainda sonha em se tornar uma política?
CP- Tenho muito cuidado para não utilizar o nunca para nada. A gente não sabe o dia de amanhã. Mas hoje não tenho interesse em ser candidata a nada. Fico muito triste com as coisas que a gente acompanha no dia-a-dia do que vem acontecendo na política. Está um negócio muito feio, praticamente coisa para bandido, a pessoa tem que ser muito profissional. Com tanto político corrupto que existe a gente sabe que estão lá por conta dos eleitores corruptos também que trocam o voto por qualquer coisa. Uma ajuda aqui e acolá. Enquanto não mudar isso acho que dificilmente alguém que queira fazer política de forma honesta terá a coragem de colocar a cara.
ac24horas – Você ainda tem filiação partidária?
CP – Atualmente não.
ac24horas – Você acreditava no projeto da FPA e saiu decepcionada?
CP – Acreditei muito já no projeto da FPA. Não é a toa que fazia parte. E também não é porque eu saí que vou dizer que nada presta. Não é isso. Tem muitas coisas boas, mas o que estraga é a quantidade de puxa-sacos que tem tanto no Governo do Estado quanto na prefeitura da Capital que vivem pra bajular. Não ajudam realmente o gestor fazendo uma crítica construtiva para mostrar o que precisa ser feito ou corrigido. Eu me decepcionei muito porque não tenho o perfil de puxa-saco. Com quem eu trabalhei sabe o que penso. Não digo amém pra tudo. Não aceito que as pessoas digam o que tenho que postar nas redes sociais ou falar na minha vida particular. Isso me incomodou. Na FPA, até uma simples publicação que a gente faz no Facebook, as pessoas correm para dizer que não pode por isso ou aquilo. Eu gosto de ter a minha independência e, principalmente, falar o que tenho vontade. A FPA me decepcionou muito. Parece que se acomodou no poder e acha que pode fazer o que quiser, sem se importar o que está causando às pessoas. Eles pagam pessoas para ver o que a gente posta e critica. Não para ajudar o gestor a melhorar, mas para te perseguir. Isso é triste que acontece nos nossos governos que, infelizmente, enquanto não mudarem só têm a piorar. Por mais que eu esteja decepcionada não vejo um salvador da pátria. Mas o que tenho convicção é que precisa mudar. Pelo menos pra gente ver se tem um menos pior. Tem muitas coisas boas que a FPA fez, mas tem uma hora que a gente precisa de um choque de realidade e não é assim como eles pensam que podem comandar tudo, mandar em tudo e fazer do jeito que bem entendem.
ac24horas – A sua família é emblemática no Projeto de Assentamento Santa Luzia, em Cruzeiro do Sul. Seu pai, o irmão Kit, é uma espécie de conselheiro da comunidade, e os teus irmãos e irmãs são envolvidos com a política. Por que essa afinidade? Houve perseguição à sua família depois que a maioria saiu da FPA?
CP – Não posso dizer que isso está no sangue porque meu pai nunca foi candidato a nada. Ele tem 78 anos, e desde que me entendo por gente, ligava o rádio às 4 horas da manhã e só desligava após o último jornal. Meu pai é uma pessoa que nunca estudou, mas é um dos caras mais atualizados politicamente que conheço. Mesma na sua simplicidade meu pai emitia a sua opinião, fazia as suas análises e transmitia isso pra gente. Lutou para que eu e meus irmãos estudássemos. Ele trabalhou no sol e na chuva no roçado para que a gente tivesse esse direito. Isso nos influenciou pra não ficarmos de braços cruzados e fazermos algo para mudar. Tenho irmãos tanto de um lado como do outro na política. Éramos todos de um mesmo lado, mas por decepções que aconteceram nos últimos anos, meus irmãos foram mudando e eu fui uma das últimas a sair da FPA. Ainda tenho uma irmã, por parte de pai, que continua na FPA. Respeito ela, procuro não misturar política com a família, mas hoje meus irmão por parte de pai e mãe estão fora. Para o meu pai foi uma decisão muito difícil porque ele acompanhou tudo desde o início, quando a FPA não estava no poder. Tudo era construído e a casa do meu pai sempre foi comitê da FPA. Quando ninguém votava na FPA no Juruá, o meu pai votava. Pra ele foi uma decepção muito grande. Foram muitas as perseguições à minha família. Aconteceram episódios terríveis de perseguição no ano passado. Pessoas desocupadas que estão Governo que fizeram isso com os meus irmãos. Se alguém quer ser meu amigo não mexa com a minha família, não toque nas pessoas que eu amo, porque aí viro uma jaguatirica.
ac24horas – Como mulher e mãe que tem uma ligação forte com a política. Como você acha que será o futuro do Acre projetando as próximas eleições?
CP – Eu sou bem otimista, mas está uma situação complicada. Sonho que, em 2018, possam surgir novas pessoas para comandar o nosso Estado. Novas lideranças, que não sei quem pode ser. Mas independente de quem seja o povo precisa acordar, precisamos da alternância do poder para não haver comodismo. Como mãe eu sonho em ver as crianças do meu Estado tendo acesso à saúde de verdade, à educação. Sonho com um futuro melhor também aos nossos idosos. Nas creches em Rio Branco as pessoas precisam conseguir as vagas através de sorteio. Que todos tenham vagas garantidas. Os eleitores precisam acordar e parar de trocar votos por favores. Muita gente sofre por isso.
ac24horas – Para finalizar. Uma grande alegria que a política te trouxe e uma grande tristeza?
CP – A alegria foram as muitas pessoas que conheci e permanecem na minha vida até hoje. Deixaram de ser meus eleitores para serem amigos. E a grande decepção foi o episódio que busco todos os dias esquecer para seguir adiante.
Fonte Ac24horas